quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Receita de Vida Descompromissada com Vitrola e Geraldinho.

Ingredientes:

01 boa dose de coragem
02 mochilas
01 saco de dormir
pouquíssimo dinheiro
muita vontade de viver

Modo de fazer :

Foi nas férias de inverno de 1978. Eu estava  com dezenove anos e o Victor ou Vitrola (como gostava de ser chamado) contava com 16 ou 17 anos, não me lembro muito bem. O Vitrola era descendente de alemães, sua avó, D. Ana, veio para o Brasil após a primeira guerra mundial, não sei se é primeira ou segunda, mas isto não vem ao caso. Como estava dizendo o Vitrola era um rapaz bonito, de olhos verdes, loiro, de um metro e oitenta de altura aproximadamente, muito bom de conversa, muito agradável. Qualquer pessoa que o conhecesse logo se encantava com a sua educação e seus modos. Ele era do tipo que topava tudo, não tinha medo, confiava muito nas pessoas. Eu, não deixava por menos, adorava uma aventura e sempre gostei muito de uma boa conversa. Pegar carona pra mim era uma forma de liberdade. Comecei treinando as caronas  com meu amigo Ike, meu vizinho de muro, meu irmão. Fazíamos pequenas aventuras, tipo sair no sábado de manhã com destino a Sete Lagoas e voltar no mesmo dia ou no máximo no outro dia. Numa destas idas a Sete Lagoas acabamos por  dormir na casa de um amigo de meu pai, o  Sr. Antônio Pondes, homem rico, dono de terras e que gostava demais da minha família e me conhecia desde pequeno. Este  fez  questão de que passássemos a noite lá. Nos cedeu um quarto onde tínhamos toalhas cheirosas, cama limpinha, tudo do bom e do melhor,o que nem imaginávamos de acontecer.  Agradecemos a generosidade, fomos servidos de uma jantinha deliciosa, depois  tomamos um bom banho e fomos pra noite de Sete Lagoas. Chegamos tarde, a porta estava cerrada, entramos na ponta dos pés para não incomodar ninguém, sempre fomos educados, entramos pro quarto  e apagamos. No dia seguinte acordamos meio que sem noção das horas, não usávamos relógio, não fazia parte do visual. Usávamos macacão Lewis, camisão dos nossos pais, quase que no joelho, bota de vaqueiro e levava na cabeça a ideia  de ser livre, o ano era de 1976, se não me engano. Já existia uma ponta de democracia chegando ao Brasil. Bom, levantamos e ficamos sentados na varanda da casa, todos já estavam acordados, acreditamos que  já tinham tomado café. Diante desta incerteza entramos em desespero e formos para o quarto onde enfiamos a cara num pão velho e bolorento que tínhamos levado e  que logo voltou do estomago de tão amargo que estava. Estávamos com fome e sem dinheiro e putos por não termos acordado na hora. Mas, para nossa surpresa,  quando saímos do quarto a mesa estava posta, com todas aquelas quitandas, queijo, leite, rosca..., tinha de tudo. Comemos até não poder mais. Juntamos nossas coisas e fomos nos despedir. Como  é de praxe pros mineiros mais antigos,  o Sr. Antônio não negou a tradição,  pegou logo uma resma de alho e pediu que a entregasse a meu pai. Agradeci muito e disse que ele adoraria.  Quando finalmente nos despedimos  olhei aquela resma, linda, pesava uns dois quilos, toda trançada, nossa!! Nós sem dinheiro nenhum, teríamos que pegar carona novamente, e só de pensar nisto dava um desânimo enorme. Então resolvemos  vender o alho (não foi das decisões mais difíceis, não rsrsrs...). Conseguimos um bom dinheiro, dava pra comprar passagens pra nós dois, mas o espírito aventureiro ou de porco falou mais alto e bebemos o dinheiro todo e voltamos de carona.
Depois disto arrisquei outras  caronas e uma destas  para  Caxambu, junto com o Luizão que é irmão do Ike, igualmente querido. Lá moram os familiares deles. Desta feita o ocorrido teria sido cômico se não tivesse sido trágico. Tudo por causa da maldita da cachaça. Fomos pra lá, eu e o  Luizão, de carona, e  o nosso querido amigo  Homero, de ônibus ( o Mero nunca foi dado a estas coisas de pegar carona).  Animados e determinados a arrasar na boite Catacumba, fizemos todo um ritual de preparação para chegarmos bem chapados, porém,  lúcidos na boite. Compramos um litro de cachaça, compramos salame e fizemos sacanagem, não entre nós, mas,deixa eu explicar, sacanagem é um petisco feito com mortadela enroladinha na cenoura, presa com um palitinho e banhada com um molho de vinagrete, por sinal muito gostoso. Compramos também umas esfirras e quando deu oito horas começamos a farra, cachaça, sacanagem, esfirra....mais cachaça, sacanagem, esfirra e aí foi até que demos conta de que já estávamos no ponto. Partimos pra boite, nós três. O Luizão entrou primeiro, tinha uma menina de mini saia sentada logo na porta e deu bola pra ele, eu vim logo atrás e a menina também deu bola pra mim, pensei comigo, isto é bom pro final da noite, se  eu não arrumar nada, e continuei entrando e me enturmei com outras pessoas e o Luizão também se arrumou. Eu em uma mesa com umas meninas de São Paulo e o Luizão em outra com umas meninas do Rio, dança um pouco com uma,  dança um pouco com outra, joga uma conversa aqui, outra ali,  tudo indicava que a noite ia ser dez e não precisaria de procurar a menina de mini saia da porta. E nós ali dançando de rostinho colado o Luizão com cara de apaixonado...quando me entra o Mero no salão,  mais branco que cera, chamando agente para ir lá fora. Achamos que era briga, fomos correndo todo animados, já arregaçando as mangas da camisa, quando o Mero da a notícia  que pegou a menina que estava de mini saia na porta da boite e levou pra casa da tia do Luizão. Putz, fudeu, a D. Elza cortou a luz do apartamento que agente estava e quando chegamos lá ela esbravejava aos gritos que não queria ver o Mero nem pintado de ouro na frente dela. E o pior falou que ligaria para o pais dele no outro dia. Viche!! Foi um sufoco!  Conclusão: o Mero dormiu dentro do carro de um amigo do Luizão em um  estacionamento,  eu e o Luizão voltamos pra casa de mãos abanando, sem energia elétrica, no escuro, porém, morrendo de rir da situação.  No outro dia compramos passagem de volta e ficamos esperando em Baependi a hora do ônibus sair para poder voltarmos pra Caxambu, pois não sabíamos a reação das D. Elza se nos visse na cidade. Coisas da Cachaça!!
     Reuníamos sempre na esquina de minha casa,  Panema com Catanduvas na Renascença, para conversar,  fumar um cigarrinho e às vezes fumar um cigarrinho de maconha. Chegávamos a ficar ali até altas horas, não era raro que minha mãe chegasse na janela e mandasse eu entrar, o que me contrariava, mas acabava entrando, minha mãe era uma pessoa muito boa porém, severa. Falarei dela em outra oportunidade.  Nesta época o Vitrola namorava com a Silvana e O Ike (Carlos Henrique) namorava com a Glivânia. Esta recém chegada de Três Pontas (MG), onde viveu até então. Glivânia sempre nos falava de Três Pontas. Falava dos amigos que ficaram pra trás, do Paivinha, do Sílas e dizia que eles eram muito doidos, e o que nós procurávamos era somente isto: doideira. Numa destas animadas conversas  resolvemos que passaríamos as férias em Três Pontas e que faríamos esta viagem de carona.
Saímos eu e o Vitrola pedindo carona a partir da Pça Sete,  Amazonas com Afonso Pena. Conseguimos uma carona num Corcel, que nos deixou em Igarapé. Dali seguimos em um caminhão até um Posto de Combustível na entrada de  Três Pontas, onde ficamos esperando o caminhoneiro jantar pra podermos  prosseguir até o centro da cidade. Quando enfim chegamos já eram quase dez da noite, então resolvemos comer alguma coisa, tomar outras tantas e dormir na praça. Apenas eu tinha um saco de dormir. A noite estava gelada, era mês de julho e no sul de minas faz muito frio. Não dava pra deixar o Vitrola dormir no chão frio. Então resolvi que dormiríamos os dois em cima do saco de dormir, um pra baixo e o outro pra cima. Para guardar o pouco dinheiro, fizemos um buraco ao lado da árvore e  o colocamos lá. Amarramos  as mochilas nos pés e apagamos, mesmo com o frio que fazia. Lá pelas sete horas escutamos o barulho de vassoura, eram os garis varrendo a praça, levantamos correndo  para tirar o dinheiro do buraco, com medo de que varressem nosso dinheirinho. Já não dava mais para retornar ao sono, devido às condições. Fomos então ao encalço dos amigos da Glivânia, Silas e Paivinha. Depois de muito tempo conseguimos achar a casa deles. Já eram mais de oito horas, batemos campainha e  quem veio nos atender foi o Paivinha. Quando falamos que eramos de BH e amigos da Glivânia, logo, pegou um baseado e acendeu lá mesmo  na varanda  da casa dele. Parecia que já nos conhecíamos a muito tempo. Nos apresentou seus pais e logo arrumou nosso quarto, que era o mesmo dele e dos irmãos. O quarto era enorme tinham seis camas e a que ficava perto da janela não tinha ninguém, era do irmão mais velho, o Sérgio,  que o pai havia mandado prender por estar aprontando demais.
Desde o primeiro dia almoçávamos todos juntos,  inclusive os pais, e a comida era maravilhosa. Porém, neste primeiro dia tínhamos uma tarefa a mais, levar comida pro Sérgio na cadeia. Quem arrumou a marmita foi a mãe dele, que a entregou ao Paivinha, e este colocou um baseado na marmita. Era tudo muito louco, a família era unida, mas muito doida. Tinham muito dinheiro, eram donos de fazenda de café.
O pai ficou tão feliz com a nossa presença que foi pedir ao delegado que soltasse o Sérgio. E o pior, foi atendido.
Sérgio já contava com a idade de 35 anos, era alcoólatra, e também dependente químico,  foi amigo de infância de Milton Nascimento, tocava uma viola que era pra poucos. Gostava de contar as peripécias que os dois aprontaram e dizia que estava  junto dele quando da composição de várias músicas, inclusive Clube da Esquina. Ele vivia bêbado, mas quando estava tocando ele era outro. Certa feita estávamos dormindo quando ele pulou a janela do quarto e caiu na cama que foi ao chão espatifada. Tomamos o maior susto. Do jeito que ele caiu ele ficou e só acordou na hora do almoço.
Três Pontas parecia um sonho. Tínhamos toda liberdade do mundo. Dormíamos até as dez, tomava café e íamos pra rua bater perna, à tardinha íamos para praça tomar cachaça e comer peixe. O dinheiro não dava pra cerveja era só cachaça, comprávamos uma garrafa e ficávamos ali até anoitecer. Numa destas vezes tivemos o privilégio de sentar ao lado do Milton Nascimento. Ele tocava lá mesmo na praça como quem toca pra amigos, sem compromisso, só improvisando. Era bom demais pra ser verdade. Nesta noite ele tocou no clube da cidade e nós sentados no chão de frente pra ele,  fomos os primeiros da fila.
 Já estávamos em Três Pontas a mais de uma semana, sabíamos que o Ike estava indo pra Caxambu, que ficava a 140km de lá. Foi então que veio a idéia de irmos pra lá também.  Acordamos sedo e fomos pra estrada pedir carona. Conseguimos a primeira carona até Varginha, ficamos em um posto de combustível. Depois de um tempo apareceu uma senhora numa Brasília que falou que estava indo para Aiuruoca era o que precisávamos, Aiuruoca fica depois de Caxambu e ela teria que passar por fora. Entramos na Brasília e a senhora começou a nos contar que tinha passado a noite com seu pai no hospital e que não tinha dormido nada. Perguntou se eu tinha carteira, eu disse que sim, e ela me passou a direção e foi  deitar no banco de traz para dormir, pois não tinha dormido nada à noite. Era o que faltava, eu dirigindo e o Vitrola do meu lado todo feliz. Como ela dormia resolvemos que entraríamos em Caxambu e depois acordaríamos a senhora. Quando chegamos em Caxambu a acordamos, ela tomou o maior susto, pois pensou que ficaríamos na estrada, e nós fingindo de égua, dizíamos que não tínhamos entendido isto.
Fomos para o hotel que o Sr. Aloísio, pai do Ike, havia sido gerente, e ali esperaríamos o Ike. Quem nos recebeu foi um negão que não queria nos ceder um quarto junto com o Ike (já tinha outros propósitos) e disse que dormiríamos no quarto dele. Até aí tudo bem, aquele mesmo esquema os dois dormindo em cima do saco de dormir... Saímos pra Night de Caxambu, tomamos todos os traçados (Martine com conhaque), cerveja, cachaça, quer dizer chutamos o pau da barraca. Lá pela duas fomos pro hotel, o Negão já estava deitado, esticamos o saco de dormir e apagamos. Uma hora  depois o Vitrola acorda e dá uma vomitada dentro da bota do Negão. O Negão virou bicho, xingou, falou pra caramba decidiu que um de nós dormiríamos na cama com ele. Advinha quem foi? Eu! O Vitrola no meu colchão e eu com o Negão. Até aí tudo bem, depois que eu peguei no sono sinto uma mão segurando o meu p.... Eu estava até gostando (rsrsrs) quando vi que era o viado do Negão levantei puto demais, falando que ia acordar todo mundo do hotel, xingando o viado  até que o Negão falou que ia dormir em outro quarto e deixou o quarto pra mim e pro Vitrola. Dormimos mais duas noites no hotel, porém em quarto separado do viado do Negão.
Voltamos pra Três pontas e pra nossa surpresa fomos recebidos com a maior alegria por todos da casa. Porém já não daria pra ficar muito tempo, no máximo que o dinheiro daria era pra mais 3 dias e se não arrumássemos uma forma teríamos que nos despedir de Três Pontas. Eu tinha arranjado uma namoradinha, que era professora na cidade e o Vitrola também arrumou. Falei pra ela que teríamos que ir embora no sábado e ela me perguntou quanto que eu gastava por dia lá em Três Pontas. Falei uma determinada quantia, além do gastávamos. No outro dia quando a encontrei ela me deu o dinheiro, fiquei todo sem graça.  Não queria aceitar, mas ao mesmo tempo era uma oportunidade de podermos ficar mais tempo na cidade. Quando encontrei o Vitrola entreguei pra ele a metade do dinheiro, ele nem acreditou.
Ficou então resolvido que iríamos no outro sábado e falamos pros pais do Paivinha. Como a mãe e a irmã tinham que vir a BH, perguntaram se eu poderia ir dirigindo o carro, um Corcel II novinho, me prontifiquei e os trouxemos até o Sion. Ficaram muito agradecidos e nós também, e pra fazer ainda mais o meio de campo mandamos um bouquet de flores para mãe deles.
Bons tempos...muita coragem, ousadia e vontade de viver. Valeu Vitrola!!



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